Laudelino Freire

(1873 SE - 1937 RJ)
Principais Obras: Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa, de publicação póstuma (1939), com a colaboração de J. L. de Campos, Vasco Lima e Antônio Soares Franco Júnior. A Defesa da Língua Nacional (1920). Notas e Perfis (onze volumes/ 1925 - 1930)

   
Índices das Revistas de Língua Portuguesa
Introdução

 

A “Revista de Lingua Portuguesa”, cujo primeiro numero apresentamos em publico, é empreendimento que tem por fim cooperar no desenvolvimento literario, apontando a não menor alvo que a cuidar no cultivo e conservação da lingua, estudá-la nos seus monumentos, commentá-la nos seus modelos, interpretá-la nas suas normas, venerá-la no trato de seus representantes e propagá-la qual a menearam os mais versados exemplares das boas letras.

(Intenções, de Laudelino Freire: no 1, p. 5)

A Revista de Língua Portuguesa foi um dos mais importantes periódicos na área filológico-gramatical no Brasil, publicada bimestralmente no período de 1919 a 1935 e composta de um total de sessenta e oito números, em três fases. Foram 1.051 matérias, 12.826 páginas.

O periódico dependia das assinaturas de seus leitores e da inserção de algumas páginas publicitárias, estas sempre colocadas ao final da revista, embora muitas vezes para divulgadar livros e coleções publicadas pela própria RLP. Entre seus patrocinadores, figuraram firmas e empresas bastante tradicionais do comércio, da indústria e da economia, como a Sul América Cia. Nacional de Seguros de Vida, a Integridade - Cia. de Seguros Marítimos e Terrestres, L’Union - Cia. Francesa de Seguros, a Anglo Sul Americana Cia. de Seguros Terrestres e Marítimos, a Internacional Cia. de Seguros, a Atlântica - Cia. Nacional de Seguros, os Estaleiros Caneco
, o Banco Alemão Transatlântico, a marca Synoról (sabonete, pó e elixir dentifrício), a Papelaria Villas Boas, a Livraria Francisco Alves, a Livraria Acadêmica, a Livraria Cruz Coutinho, a Litho-Tipographia Fluminense, O. Mínních (firma de artes gráficas), a Cia. das Loterias Nacionais do Brasil, a Drogaria Legey, a Casa Heim (especializada em comestíveis), a metalúrgica Soares de Sampaio & Cia. Ltda., a Marcenaria Brasil e a Companhia Fornecedora de Materiais (para construção), entre outros.

Sua primeira fase estendeu-se, com absoluta regularidade bimestral, de setembro de 1919 a dezembro de 1929. Após uma interrupção de pouco mais de um ano, a revista voltou a ser publicada, em sua segunda fase, de setembro de 1931 até março de 1932, também bimestralmente. Durante os anos de 1933 e 1934, houve outra interrupção, acontecendo o retorno em 1935, quando foram publicados os dois últimos números, que integraram a terceira e última fase, um em janeiro e o outro em março, encerrando definitivamente a sua publicação. Somam-se, portanto, sessenta e oito volumes, sendo sessenta e dois referentes à primeira fase, quatro à segunda e dois à terceira.

Os primeiros números da Revista de Língua Portuguesa chegaram a receber uma segunda edição, lançada no final da década de 20. O número médio de páginas ficava em torno de 190, sendo que, na primeira metade da primeira fase, havia quase sempre um número superior a duzentas páginas (uma delas teve 317 páginas), ao passo que na segunda metade o total ficava perto de uma centena e meia. Houve inclusive números com “apenas” 141 páginas, o que pode ser interpretado como um sintoma de dificuldade para sua edição.

Seu idealizador e diretor, Laudelino de Oliveira Freire, nasceu na cidade de Lagarto, Sergipe em 26 de janeiro de 1873 e faleceu no Rio de Janeiro em 18 de junho de 1937. Foi advogado, jornalista, professor, político, crítico e filólogo. Estudou no Colégio Militar do Rio de Janeiro, não concluindo seu curso por motivo de doença. Retornaria, entretanto, mais tarde àquela instituição como professor catedrático, lecionando diversas disciplinas, como Português, Espanhol, Geografia, História e Geometria. Formou-se em Direito em 1902.

Após cumprir três mandatos como deputado estadual em Sergipe, Laudelino Freire fixou-se definitivamente no Rio de Janeiro, tendo colaborado em diversos órgãos da imprensa, entre eles o Jornal do Brasil, o Jornal do Comércio e O País. Dirigiu a Gazeta de Notícias e assinou alguns artigos na imprensa sob os pseudônimos Lof e Wulf. Eleito em 16 de novembro de 1923 para a Cadeira no 10 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Rui Barbosa (1849-1923), fundador da Cadeira, cujo patrono é Evaristo da Veiga (1799-1837), foi recebido em 22 de março de 1924, pelo acadêmico Aloísio de Castro (1881-1959).

Laudelino foi um amante da língua portuguesa, divulgador dos estudos clássicos e teve a competência de um grande mestre. Foi autor de vários trabalhos de elevado valor filológico e literário, entre os quais se destaca o Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa, de publicação póstuma (1939), com a colaboração de J. L. de Campos, Vasco Lima e Antônio Soares Franco Júnior – obra até hoje representativa da lexicografia de língua portuguesa, com 208.104 verbetes, 5.284 páginas e 5 volumes

Seus principais livros foram: Escritos Diversos (ensaios, 1897); História de Sergipe (história, 1900); Sonetos Brasileiros (antologia, 1904); Os Próceres da Crítica (crítica, 1911); A Defesa da Língua Nacional (1920); Regras Práticas para bem escrever (1920); Verbos Portugueses (filologia, 1925); Notas e Perfis (onze volumes, 1925-1930); Seleta da Língua Portuguesa, anotada (1934); Linguagem e Estilo (1937). Curiosamente, encontram-se também em sua produção livros sobre Filosofia e Lógica e mesmo sobre Geometria, a saber: Introdução ao Curso de Psicologia e Lógica e Lições de Geometria Prática.

Laudelino Freire foi também um grande editor e divulgador de obras. Promoveu a republicação fac-similar da segunda edição do Dicionário de Língua Portuguesa, de Morais, propiciou a publicação de vários livros e fundou a Estante Clássica da Língua Portuguesa, publicação associada à Revista de Língua Portuguesa e cujos volumes constituem primorosa contribuição aos estudos sobre a vida e a obra de grandes nomes da língua portuguesa. A obra tinha um plano de publicação de cinqüenta volumes (“Compor-se há a colleção de cincoenta volumes”), revelado na abertura do primeiro exemplar. O audacioso projeto, assinado por seu diretor, se propunha a transcrever trabalhos  

onde brilhem os lavores da linguagem scintillante e pura; e quanto nos seja dado, enriquece-lo hemos de annotações grammaticaes, lexicológicas, literarias e historicas. (p. VII)

Formariam a Estante Clássica, sob a chancela da Revista de Língua Portuguesa:

Rui Barbosa, Gregório de Matos, Matias Aires, Cláudio Manuel da Costa, Tomás Gonzaga, Silva Alvarenga, Basílio da Gama, Santa Rita Durão, Sousa Caldas, Mont’Alverne, Visconde de Araguaia, Porto-Alegre, João Lisboa, Gonçalves Dias, Odorico Mendes, Bispo do Pará, Porto Seguro, Moraes, Ramiz Galvão, Machado de Assis, Francisco de Castro, Carneiro Ribeiro, Alfredo Gomes, Heráclito Graça, Pacheco Júnior, Lameira de Andrade, Sotero dos Reis, Júlio Ribeiro, João Ribeiro, Castro Lopes, Lucindo Filho, João de Barros, Sá de Miranda, Camões, Antônio Ferreira, Amador Arraes, Fernão Mendes, Francisco Manuel de Melo, Luís de Sousa, Antônio Vieira, Manuel Bernardes, Fernão Lopes, Antônio das Chagas, Bocage, Filinto Elísio, José Agostinho de Macedo, Bluteau, Herculano, Antônio Castilho, Camilo, Garrett, Rebelo da Silva, Latino Coelho, Cândido de Figueiredo, Gonçalves Viana.

No entanto, a coleção ficou restrita a quinze volumes, a saber: Rui Barbosa (vol. I, nov. 1920); Machado de Assis (vol. II, jan. 1921); Carneiro Ribeiro (vol. III, abr. 1921); Francisco de Castro (vol. IV, jun. 1921); Morais (vol. V, set. 1921); Antônio Castilho (vol. VI, out. 1921); Gonçalves Dias (vol. VII, dez. 1921); Camilo Castelo Branco (vol. VIII, fev. 1922); Latino Coelho (vol. IX, jun. 1922); Ramiz Galvão (vol. X, set. 1922); Eusébio de Matos (vol. XI, ago. 1923); Antônio de Sá (vol. XII, jan. 1924); Porto-Alegre (vol. XIII, ago. 1924); Diogo Gomes Carneiro (vol. XIV, nov. 1924); e Rocha Pita (vol. XV, 1925).

Integraram a redação da Revista de Língua Portuguesa setenta e seis colaboradores efetivos, dentre os quais citamos os nomes de Afrânio Peixoto, Cândido de Figueiredo, Carlos de Laet, Carlos Góis, Daltro Santos, João Ribeiro, José Joaquim Nunes, Júlio Nogueira, Leite de Vasconcelos, Mário Barreto, Maximino Maciel, Ramiz Galvão, M. Said Ali, Silva Ramos, Sousa da Silveira, dentre outros cuja contribuição é igualmente relevante e que poderão ser encontrados no índice constante deste trabalho.

Com o subtítulo “Arquivo de estudos relativos ao idioma e literatura nacionais”, a Revista era composta de artigos e colaborações, embora alguns de seus textos não tivessem o compromisso da regularidade, ou seja, nem sempre os autores voltavam a enviar colaborações para os volumes seguintes e, se o faziam, não mantinham necessariamente seqüência entre os assuntos desenvolvidos. Outros trabalhos, reproduzidos ou originais, constituíam seções que se repetiam em diversos volumes, como a “Réplica do Senador Rui Barbosa: às defesas de redação do Projeto do Código Civil Brasileiro da Câmara dos Deputados”, dividida em quarenta e uma matérias, do no 1 ao no 43; o “Dicionário da língua tupi”, de Gonçalves Dias, publicado em vinte partes, também do no 1 ao no 43; as “Lições de português: dadas no terceiro ano da Escola Normal, de acordo com o programa vigente no ano letivo de 1920”, de Sousa da Silveira; ou o “Regime dos verbos portugueses”, de Hélio Ribeiro, sete artigos, do no 32 ao 42.

Algumas das matérias da Revista acabaram sendo incluídas ou reunidas em livro. Três exemplos ilustram bem o que foi também uma das contribuições do periódico. O mais relevante é o caso do livro Lições de Português, de Sousa da Silveira, cuja primeira edição (1923) reproduz na íntegra os dez artigos publicados de maio de 1921 a janeiro de 1923 na Revista de Língua Portuguesa. A última das reedições desse livro tem data de 1983, pela editora Presença.

Outra menção importante são dois artigos de M. Said Ali, “Emprego do gerúndio” (no 4, 1920) e “Verbos transitivos e intransitivos” (no 11, 1921), incluídos em sua Gramática Histórica da Língua Portuguesa, cuja primeira edição se constituiu de dois volumes autônomos, a Lexicologia do Português Histórico (de 1921) e a Formação
de Palavras e Sintaxe do Português Histórico (de 1923), reunidos depois num único volume publicado em 1931 e várias vezes reeditado, a última delas no ano de 2001 pela EdUSP.

Por fim, também merece referência, entre outras tantas que poderíamos fazer, as matérias assinadas por Mário Barreto, muitas delas na seção ”Consultas”. O renomado filólogo incluiu-as esparsa e tematicamente em seus livros da série “Estudos de Língua Portuguesa”, “Através do Dicionário e da Gramática” e “De Gramática e de Linguagem publicados entre 1920 e 1928 e cujo último
relançamento deu-se na década de 80 pela editora Presença, estando hoje novamente esgotados.

A Revista tinha também algumas seções fixas, dentre as quais se pode destacar a que tinha o significativo título de “Os Mestres da Língua”, presente em 49 dos volumes, não constando apenas dos nos 46, 47 e 50 a 62 da 1ª série e dos quatro da 2ª série. Assinada na maioria das vezes pelo próprio Laudelino Freire, o objetivo desses artigos era homenagear uma figura importante na divulgação do trabalho em prol da língua portuguesa. Quase sempre colocada ao final do volume e antecedida de uma foto do homenageado, a seção focalizou personalidades como Rui Barbosa, Santa Rita Durão, Pe. Antônio Vieira, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Gonçalves Dias, Machado de Assis, Carlos Góis, Eduardo Carlos Pereira, Pe. Magne, Cândido de Figueiredo, Filinto Elísio, Mário Barreto, Silva Ramos, Carlos de Laet, Rafael Bluteau, Maximino Maciel e João Ribeiro.

“Consultas” era o título de outra seção fixa da Revista, destinada a responder a perguntas e esclarecer dúvidas dos leitores acerca de questões que interessavam ao idioma vernáculo. As questões eram enviadas à redação da revista e encaminhadas a um dos colaboradores, que respondia aos consulentes.

Eventualmente algum número da Revista de Língua Portuguesa tinha um caráter temático especial, como o nº 23, que divulgou a homenagem póstuma a Rui Barbosa, patrono da Revista, por ocasião de seu falecimento, ocorrido a 2 de março de 1923. A edição reproduziu a cobertura realizada pela imprensa e transcreveu artigos de vários jornais de grande prestígio na época, dentre eles a Gazeta de Notícias. O nº 29 da Revista divulgou a eleição de Laudelino Freire para a Cadeira nº 10 da Academia Brasileira de Letras, em sucessão a Rui Barbosa, publicando o “Discurso dirigido aos acadêmicos”, de Laudelino Freire na cerimônia de posse, além de outros a ele dedicados, dos quais se destaca o de recepção, “Discurso dirigido a Laudelino Freire”, de Aloísio de Castro. Ainda nesse número, sob o título “O que disse a imprensa”, foram transcritas as matérias de vários jornais, como o Jornal do Brasil, Correio da Manhã, O País, O Imparcial, ABC, Vida Carioca, que focalizaram a posse de Laudelino Freire.

O período em que se inscreve a publicação da Revista de Língua Portuguesa é marcado por muitas controvérsias e discussões em torno da língua portuguesa. Segundo Tânia Regina de Luca, em A Revista do Brasil: um diagnóstico para a (n)ação, já desde o século XIX, duas correntes de pensamento se confrontavam a esse respeito: a dos puristas, defensores dos cânones gramaticais de base lusíada, e a dos vanguardistas, que pretendiam uma autonomia da variante brasileira na sua forma gráfica, literária e lexical, reafirmada pelo distanciamento geográfico, pela formação étnica e climática, “advogando a legitimidade dos brasileirismos e das construções populares” (p. 244). A posição da Revista de Língua Portuguesa era declaradamente conservadora, a ponto de constar do primeiro artigo de seu primeiro número referências que enalteciam 

a pureza de Castilho, a grandiosidade de Herculano, a riqueza de Camillo, a eloquencia de Latino Coelho, a graça de Almeida Garrett, o donaire, a elegancia, o garbo de João Francisco Lisboa, Gonçalves Dias, Francisco de Castro, Machado de Assis, e em todos a correcção, a lucidez, o ornato, a propriedade.

(Intenções, de Laudelino Freire: no 1, p. 9)

  As propostas de reformas ortográficas, igualmente mencionadas nas “Intenções”, criavam uma série de celeumas entre gramáticos e filólogos. Para Tania de Luca, teria a Academia Brasileira de Letras, “abdicando suas propostas em prol daquelas formadas pelos portugueses – consideradas do ponto de vista lingüístico superiores,” enfurecido boa parte da nossa intelectualidade. E prosssegue:

Entrelaçavam-se aqui questões teóricas e políticas. No tocante à primeira, alguns defendiam a ortografia etimológica, discordando portanto de qualquer alteração, independentemente de quem a propusesse. Dentre os que reconheciam a necessidade de simplificar o sistema vigente, alguns recusavam a proposta portuguesa, não muito diferente da brasileira, pelo fato dos especialistas deste lado do Atlântico não terem sido consultados; enquanto outros defendiam uma ortografia fônica que fosse fiel unicamente à prosódia brasileira. Havia ainda aqueles que, preocupados com a afirmação da nossa autonomia, interpretavam a adoção do modelo português como verdadeira capitulação diante da antiga metrópole, amplamente inferiorizada no tocante ao número de usuários do idioma.  (Luca, p. 247-8)

De fato, em 1901 surgia a primeira proposta de uma instituição brasileira a respeito de uma convenção ortográfica:

Na última sessão ordinária dessa instituição literária o Sr. Medeiros e Albuquerque propôs que fosse nomeada uma comissão para estabelecer várias regras tendentes a fixar a ortografia que deve a Academia usar em seu Boletim. No estado atual de nossa língua, inspirando uma verdadeira anarquia ortográfica, cada qual escrevendo como lhe parece e, o que é mais, procurando argumentos para demonstrar que sua ortografia é que é a certa, nenhum serviço mais assinalado pode a Academia prestar do que esse de fixar normas para seu uso, a fim de que em suas publicações oficiais não apareça em cada trabalho uma ortografia diversa conforme o modo de ver do respectivo autor.

(Jornal do Commercio: 15 jun. 1901)

Apresentado à Academia Brasileira de Letras por Medeiros de Albuquerque, gerou discussão por alguns anos, sem que se chegasse a uma conclusão satisfatória. Aliás, ao longo da primeira metade do século XX, reformas ortográficas foram propostas e aceitas para logo após serem revogadas. Laudelino Freire chegou a apresentar à Academia um Formulário Ortográfico, rejeitado.

A Revista de Língua Portuguesa não se absteve da “luta”, divulgando os diferentes pontos de vista defendidos por seus colaboradores, a saber: Silva Ramos, “A Reforma Ortográfica”, em defesa da ortografia oficial portuguesa (nos 3 e 4); Fernando Néri, “Reforma Ortográfica”, proposta subscrita por vinte e dois acadêmicos, solicitando a revogação das deliberações adotadas pela Academia, até que o problema da simplificação ortográfica fosse resolvido (no 3); Domingos de Castro Lopes, “Pela escrita sônica” (nos 4 e 5).

Em julho de 1924, Laudelino Freire apresentou à Academia Brasileira de Letras seu plano de organização do Dicionário Brasileiro, divulgado pelo número 30 da Revista. Uma das partes do trabalho tratava de sua proposta de reforma ortográfica. Em seguida, no número 31, Silva Ramos, João Ribeiro e Aloísio de Castro declaravam o “Parecer da Comissão de Lexicografia acerca do Plano de Organização do Dicionário Brasileiro”, que a princípio não lhe era favorável e propunha várias mudanças. Ao final, como sabemos, o dicionário de Laudelino saiu como obra póstuma e a reforma ortográfica foi rejeitada.

Sem querer pormenorizar neste ponto as várias “negociações” a respeito da questão ortográfica, podemos dizer que só na década de 40 foi oficializada no Brasil a nova ortografia, após acordo entre a Academia Brasileira de Letras e a Academia das Ciências de Lisboa Portugal, consubstanciada no Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, que vigorou até 1971, quando algumas simplificações nas regras de acentuação, foram implantadas.

O grande público, sensível à situação, participava opinando por meio dos veículos de comunicação que lhe eram disponíveis, ao passo que o governo assumia uma atitude de autoridade diante dos impasses, promovendo reformas educacionais em favor de uma linguagem mais apropriada à realidade brasileira, mas sem abandonar o rigor gramatical. A Revista de Língua Portuguesa assume papel definido diante desse contexto, rejeitando o movimento renovador e divulgando obras nacionais, portuguesas ou mesmo de origem diversa, visando à manutenção da erudição e do purismo.

Posto que não deixasse de manifestar sua posição conservadora diante das divergências levadas à discussão, podemos, contudo, afirmar que a RLP prestava um serviço de ordem vanguardista para aquela época, porque não se omitia de veicular artigos relativos às várias correntes existentes, mesmo as que apresentassem propostas inusitadas, contrárias às defendidas pela revista, como por exemplo “O dialeto caipira” que tratava sobre as variações do português falado nas várias regiões do território nacional (Sousa da Silveira, nº 11) e “A língua nacional”, a respeito das alterações léxicas e gramaticais necessárias ao falar do Brasil como o uso do pronome átono no início da frase (João Ribeiro, nº 13).

As polêmicas que estão publicadas na Revista incluem esse tema da ortografia, mas também envolvem questões sobre aspectos do léxico, da etimologia, da sintaxe e de muitos outros assuntos que hoje, diante das inúmeras colunas de consultórios gramaticais espalhadas pela imprensa, nem parece já terem sido tratados exaustivamente no passado.

É interessante notar que muitas das dificuldades daquela época são as mesmas ainda hoje trazidas a questionamento, como por exemplo o uso dos pronomes pessoais retos e oblíquos, assunto que foi matéria de muitos números da Revista de Língua Portuguesa, a saber: “o uso dos pronomes entre verbos” (A. Leite, no 25), “o pronome se” (Alfredo Gomes, no 15), “colocação pronominal” (João Ribeiro, no 27), “entre eu e ele? entre mim e ele?” (Alfredo Gomes, no 30), dentre muitos outros que poderíamos citar como “o uso do verbo haver indicando tempo decorrido” (José da Costa Pereira, no 3, 2a série) e “sobre a regência de assistir” (José de Sá Nunes, no 2, 3a série).

A aproximação que existe atualmente entre professores e alunos é uma situação que facilita o diálogo e abre espaço ao questionamento. Esta, contudo, não era a forma com que se articulavam mestres e discípulos nas décadas de 20 a 40 do século passado. A distância gerava um certo autoritarismo claramente percebido no tom das respostas dadas e na forma com que os mestres as apresentavam, embora se possa encontrar um início de discussão a respeito dos usos lingüísticos.

O momento historico em que se encontram os dois povos que se expressam em lingua portuguesa, díspares presentemente no modo de a encararem, põe em relevo a bifurcação della em dois ramos já bem distinctos e que mais a mais se hão de separar de forma pertinaz e incoercivel.

(Intenções, de Laudelino Freire: no 1, p. 7)

Como se vê, farto é o material disponível para pesquisa nos sessenta e oito números publicados da revista dirigida por Laudelino Freire. E, para melhor estudarmos sua organização interna e facilitarmos futuras consultas, elaboramos neste trabalho três diferentes índices:

- um índice das matérias por exemplar, no qual distribuímos os artigos de cada volume de acordo com a relação de nomes dos autores pela ordem numérica das páginas como se apresentam na revista;

- um índice geral de autores e colaboradores, que reorganiza o primeiro índice em ordem alfabética, identificando os autores dos artigos publicados e acrescentando a informação sobre o número da Revista em que podem ser encontrados; e

- por último, um índice geral por assunto, para o qual selecionamos áreas de estudo que permitissem abranger todos os artigos, agrupando-os por suas características predominantes. Complementa-o um índice dos 22 apêndices, inseridos com repaginação e renumeração nas últimas páginas da Revista, reproduzindo textos relevantes para a língua portuguesa (ou assim considerados).

  O modelo que aqui seguimos não é mesmo que foi adotado por Pedro Caruso no seu Índice Remissivo da Revista de Língua Portuguesa, obra publicada em 1966, contribuição relevante e pioneira sobre a revista de Laudelino Freire. Nela, o autor mescla a relação alfabética dos nomes dos autores, dos homenageados e dos temas tratados e menciona de forma muito breve o assunto relativo ao artigo exposto. Também apresenta, ao final, um quadro cronológico sucinto da periodicidade dos números, a lista dos colaboradores e a instituição à qual se filiavam, indicando ainda uma lista de bibliotecas que possuíam, à época do lançamento do livro, a coleção das revistas, completa ou não. O índice de Pedro Caruso compõe-se de cento e noventa páginas, tendo sido elaborado a partir da dificuldade sentida pelo seu próprio autor de consultar a Revista de Língua Portuguesa.

Convém também assumir neste ponto as limitações do terceiro dos índices aqui apresentados. A divisão proposta se faz sob certa reserva, pois não é raro estarem presentes num mesmo texto traços marcados de mais de uma área. Por isso, procuramos adotar denominações mais genéricas, como: morfologia, ortografia, sintaxe, crítica filológica, crítica gramatical, crítica textual, polêmicas (geradas pelas diferentes correntes filológicas existentes na época), brasileirismos, tupinismos, toponímias, linguagem profissional, textos de valor documental ou literário, entre outros. Para tanto, tomamos por base outro trabalho pioneiro, o de Antônio Martins de Araújo, responsável pela indexação da Revista Filológica, editada de 1940 a 1956, também um importante periódico na história dos estudos lingüístico-gramaticais brasileiros.

Certamente, o trabalho de Antônio Martins muito nos auxiliou nesta jornada, servindo o seu próprio índice como modelo para a confecção dos que aqui apresentamos, apesar das adaptações que precisamos fazer à listagem do Índice geral por grupo de assuntos, em virtude da necessidade de ajuste às características deste periódico e também ao grande número de revistas e aos temas nelas ventilados. Ambos os trabalhos encontram-se agora vinculados a um projeto maior, qual seja o que o GT Historiografia da Lingüística Brasileira da ANPOLL tem estimulado e expandido: Indexação das Revistas Filológicas Brasileiras do Século XX.

Por força da pesquisa à qual nos dedicamos, fomos apresentados a textos, muitos dos quais até então por nós desconhecidos. Vivemos durante esse trajeto a redescoberta, ou mesmo a descoberta de autores do passado que se atualizam pela riqueza de seu conteúdo, pela maior ou menor sensibilidade que revelavam para decodificarem fatos expressivos da língua portuguesa que hoje estão prontos para nós, explicados e descritos pela Gramática ou pela Lingüística. Porém, naquela época era por meio das tentativas de acertos e erros, do uso da intuição e do raciocínio lógico que se obtinham as conclusões. Daí o grande mérito devido a esses precursores dos estudos sistemáticos do português no Brasil, que não temeram expor suas idéias, mesmo em face de tantas críticas levantadas pelas correntes opostas.

A Revista de Língua Portuguesa, embora respeitada e conhecida, tinha uma tiragem que dependia fundamentalmente, como dissemos, do número de assinantes e de anunciantes. Após sua retirada de circulação, ainda durante algum tempo ocupou as prateleiras de alguns privilegiados que a ela tiveram acesso na época ou a consultavam nas coleções das grandes bibliotecas. O acervo que consultamos (quase integral) foi-nos gentilmente cedido por Antônio José Chediak, a quem devemos também muito do estímulo para a realização deste trabalho. Complementamo-lo com exemplares encontrados em lojas de livros usados do Rio de Janeiro e de São Paulo ou na Biblioteca Nacional, pois os dois números da terceira série são realmente raros no mercado livreiro atual. Hoje, poucos centros de pesquisa a possuem na totalidade, o que impede um contato de novas gerações de estudiosos com as idéias desses mestres do passado.

Laudelino Freire e a Revista de Língua Portuguesa estão hoje esquecidos dos meios acadêmicos universitários. A consulta a estes índices e as leituras que se poderão fazer de seus artigos darão oportunidade para que esse quadro seja rediscutido e que se resgate o nome de um dos maiores incentivadores dos estudos filológicos no Brasil, patrono da cadeira no 36 da Academia Brasileira de Filologia, ocupada primeiro por Artur de Almeida Torres, depois por Antônio Geraldo da Cunha e hoje por Maria Emília Barcellos da Silva.

Pretendemos, pois, que esse índice seja matéria útil e sirva de subsídio aos estudiosos de Letras, àqueles que queiram pesquisar sobre a língua nacional, ou mesmo a quem queira entrar em contato com essa peculiaridade da nossa História. Desejamos que, assim como este trabalho foi para nós um misto de razão e emoção, possa ser para quem dele se servir uma aventura por lugares inéditos que serão expostos à luz da curiosidade humana, gerando o movimento da descoberta do até então não-conhecido, aumentando ainda mais no espírito o amor à língua portuguesa.

 

Índices das Revistas de Língua Portuguesa

 

Introdução

Índice das matérias por periódico

Índice das matérias por autor

Índice por grupo de assunto

Orientador:
Claudio Cezar Henriques

Indexadora:
Regina Maria de Souza (UERJ)

Índice dos apêndices

Conclusão

Introdução